Autoestima e Existência: reflexões a partir da perspectiva fenomenológico-existencial
A autoestima é um fenômeno que pode ser compreendido, a partir da perspectiva fenomenológico-existencial, para além de uma simples avaliação positiva ou negativa que o indivíduo realiza sobre si mesmo. Nessa abordagem, busca-se compreender a maneira singular como cada pessoa vivencia sua existência, atribui sentidos às próprias experiências e estabelece relações consigo, com os outros e com o mundo. A fenomenologia, fundamentada inicialmente por Edmund Husserl, valoriza a experiência vivida e a compreensão dos fenômenos tal como se apresentam à consciência (HUSSERL, 2006). Seus desdobramentos no pensamento de Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty possibilitam diferentes formas de compreender a existência humana e sua relação com o mundo.
Para Heidegger (2006), o ser humano é compreendido como ser-no-mundo, não podendo ser analisado de maneira isolada do contexto em que existe. Dessa forma, a percepção que o indivíduo possui de si é atravessada por suas relações, experiências, condições históricas e sociais. A autoestima, portanto, não se constitui exclusivamente no interior do indivíduo, mas também a partir das relações que estabelece e dos significados que atribui à sua trajetória.
Sartre (2015), por sua vez, contribui para essa reflexão ao abordar a liberdade, a responsabilidade e o olhar do outro. A percepção que o sujeito possui de si pode ser influenciada pelas avaliações e expectativas daqueles com quem se relaciona. Quando o indivíduo passa a depender excessivamente da aprovação externa, pode ocorrer um distanciamento de sua própria experiência, fazendo com que seu valor seja condicionado àquilo que os outros consideram adequado ou desejável. A perspectiva existencial, entretanto, compreende o sujeito como aberto a possibilidades, permitindo que novas significações sejam construídas a partir das experiências vividas.
Merleau-Ponty (2011) amplia essa compreensão ao destacar a importância da corporeidade e da percepção. O corpo não é compreendido apenas como um objeto que o indivíduo possui, mas como a maneira fundamental pela qual ele se relaciona e se apresenta ao mundo. Assim, a autoestima também envolve a forma como a pessoa experiência seu próprio corpo, especialmente diante dos padrões sociais e estéticos que podem produzir sentimentos de inadequação e desvalorização.
Nesse contexto, a autenticidade torna-se um aspecto importante. Uma relação saudável consigo mesmo não significa necessariamente possuir uma imagem sempre positiva ou idealizada de si, mas desenvolver a capacidade de reconhecer potencialidades, limitações, sentimentos e experiências sem transformar essas características em definições absolutas do próprio ser. A existência humana é compreendida como dinâmica e aberta a novas possibilidades.
Carl Rogers (2009), embora pertencente principalmente à Psicologia Humanista, oferece uma contribuição significativa para essa discussão ao enfatizar a congruência e a aceitação da experiência. Para o autor, quanto maior a possibilidade de o indivíduo reconhecer e aceitar sua experiência, maior pode ser sua aproximação de uma relação mais integrada consigo mesmo. Dessa maneira, a autoestima pode ser compreendida não como uma característica fixa, mas como parte de uma relação dinâmica que a pessoa estabelece consigo ao longo de sua existência.
Portanto, compreender a autoestima pela perspectiva fenomenológico-existencial significa considerar o indivíduo em sua totalidade e singularidade. Mais do que buscar simplesmente “aumentar a autoestima”, essa abordagem procura compreender como a pessoa experiência a si mesma, quais sentidos atribui à própria história, como vivencia o olhar do outro e quais possibilidades reconhece para sua existência. Assim, cuidar da autoestima pode significar favorecer uma relação mais autêntica, consciente e acolhedora com a própria experiência, reconhecendo tanto as limitações quanto as possibilidades de transformação.
Referências
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2006.
HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2006.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 2015.
GONÇALVES, Rafael Ramos; GARCIA, Fernanda Alt Fróes; DANTAS, Jurema de Barros; EWALD, Ariane Patrícia. Merleau-Ponty, Sartre e Heidegger: três concepções de fenomenologia, três grandes filósofos. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, p. 402-435, 2008.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo; MATTAR, Cristine Monteiro. A fenomenologia como método de investigação nas filosofias da existência e na psicologia. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 30, n. 4, p. 441-447, 2014.



